quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Nem Tudo O Que Seu Mestre Mandar!

Texto usado pela Assessora Pedagógica da Editora do Brasil em Curso de Orientação aos Docentes em Janeiro de 2011.

Reflita bem na leitura, Você irá gostar!


Língua Portuguesa: Coletâneas
Edição 230 | Março 2010


Rosane Pamplona

Ilustração: Cris Burger. Clique para ampliarXang era um sábio chinês. Seus alunos aceitavam seus ensinamentos sem pestanejar:

- Sim, mestre!

- Eu ouço e obedeço, mestre!

Um dia, Xang resolveu fazer uma viagem com três dos seus fiéis alunos. Instalaram-se numa carroça puxada por dois burrinhos e lá se foram: nhec, nhec. Xang, já velhinho, logo sentiu sono. Tirou as sandálias e pediu aos jovens:

- Por favor, me deixem dormir! Fiquem bem quietos!

Dali a pouco roncava. Na primeira curva do caminho, as sandálias dele rolaram pela estrada. Os discípulos nem se mexeram. Quando o mestre acordou, logo as procurou.

- Rolaram pela estrada - disseram.

- E vocês não pararam a carroça? Não fizeram nada?

- Fizemos sim, senhor. Obedecemos: ficamos bem quietos.

- Ai, está bem - conformou-se o mestre. Mas se eu cochilar de novo prestem atenção se alguma coisa cair da carroça, ouviram?

- Ouvimos e obedecemos!

Xang cobriu os pés com uma coberta e adormeceu. Entretanto, no balançar da carroça, a coberta deslizou e lá se foi. O mestre acordou com frio. Mas cadê a coberta? Será que...

- Escorregou pela estrada - confirmaram os três.

- E o que vocês fizeram?

- Fizemos só que o mestre mandou. Prestamos atenção.

- Não! - esbravejou Xang. Vocês tinham de pegar a coberta de volta! Atenção: se eu dormir e alguma coisa cair da carroça, peçam para parar e PONHAM-O-QUE-CAIU-DE-VOLTA-NA-CARROÇA, entendido?

- PERFEITAMENTE!

E a viagem continuou: nhec, nhec. O mestre foi cabeceando e cochilou. Dali a pouco, os jumentos sentiram necessidade de fazer... suas necessidades. Ploft, ploft, ploft, caíram os cocozinhos pelo caminho. Os discípulos mandaram parar a carroça e, com muito cuidado, foram pondo os fedidos pelotinhos para dentro. Aquela agitação fez Xang acordar. Nossa, que cheirinho!

- Esperem! O que estão fazendo?

- Apenas obedecendo! - juraramos três. - Pondo de volta o que caiu da carroça.

- Não, mas isso não!

Ai, com aqueles cabeças-duras, só mesmo muita paciência:

- Está bem, vamos começar de novo. Vou fazer uma lista de tudo o que há na carroça. Se algo cair, verifiquem se está nela. Se não estiver, não peguem de volta, certo?

- Somos pura obediência, ó, mestre!

Xang escreveu a lista. Que canseira! Mas agora podia dormir tranquilo... E a carroça subiu uma estradinha íngreme. Numa curva mais fechada, ops, quem é que caiu dessa vez? O mestre! Ele escorregou e se foi ribanceira abaixo.

- Socorro! - gritou - Venham me pegar!

Graças aos céus ele conseguiu se agarrar numa raiz do barranco.

- Ei, o que estão esperando? Me ajudem! - chamou.

Mas os discípulos, imperturbáveis, consultavam a lista.

- Seu nome não está escrito aqui - explicaram. - Não podemos pegá-lo, ó, mestre!

Não teve jeito: Xang, com muito esforço, subiu o barranco e voltou para a carroça. Mas não dormiu mais...

Rosane Pamplona, autora deste conto, é contadora de histórias e professora de Língua Portuguesa.
Fonte: Revista Nova Escola de Março de 2010.

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